Entre a retórica e a realidade: os obstáculos para o fim da era do petróleo

Entre a retórica e a realidade: os obstáculos para o fim da era do petróleo

*Por Chris Santos

Já faz alguns anos que o debate sobre o fim dos combustíveis fósseis domina a pauta global, impulsionado pela urgência das mudanças climáticas e pela necessidade premente de reduzir a poluição. No entanto, desde o início desta movimentação, era evidente que os prazos estabelecidos flertavam com a ficção. As metas agressivas pareciam desconsiderar a complexidade dos interesses geopolíticos, a profundidade das cadeias econômicas globais e o volume colossal de dinheiro que sustenta o setor de óleo e gás. Por isso, não surpreende — e já se torna usual — ler notícias diárias sobre a flexibilização dessas metas e o recuo de grandes potências.

Um exemplo claro desse choque de realidade vem da Europa. A União Europeia (UE), historicamente a região mais “defensora” da transição verde, cedeu à pressão de governos locais e das principais montadoras do continente. O bloco caminha para revisar a regra que proibia a venda de novos carros e vans com motores a combustão interna a partir de 2035. O pragmatismo econômico e a manutenção de empregos industriais começam a frear o idealismo dos prazos iniciais.

Se na Europa o movimento é de hesitação, nos Estados Unidos a mudança de rota é uma realidade. A postura de Donald Trump na presidência representa um ponto de inflexão decisivo. O republicano vem implementando uma série de medidas focadas em reverter as políticas energéticas de seu antecessor, Joe Biden, reorientando a nação para um modelo abertamente dependente e impulsionador dos combustíveis fósseis. Entre as decisões mais notáveis está o abandono sistemático da transição para fontes de energia limpa, substituído por uma política que duplica o foco na produção e exploração de petróleo e gás natural. A lógica é clara: a segurança energética e a hegemonia econômica americana estão atreladas, na visão de Trump, ao “ouro negro”.

Essa sede por recursos e controle energético não se limita ao território americano; ela dita a política externa. A pressão de Washington para tirar Nicolás Maduro do poder na Venezuela tem, como pano de fundo inegável, o interesse estratégico no petróleo. Não se trata apenas de democracia, mas de acesso à energia. É impossível ignorar que a Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 300 bilhões de barris. Em um cenário onde a transição energética é postergada, o controle ou a influência sobre essa reserva colossal é uma questão de segurança nacional para os EUA.

Contradições e a força do dinheiro

No Brasil, o cenário também é marcado por contradições, ainda que de outra natureza. Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defender, na Cúpula de Líderes do G20, que o grupo assuma o protagonismo em um “Mapa do Caminho” para a transição energética e o abandono progressivo da dependência fóssil, a prática interna destoa do discurso externo. Ao mesmo tempo em que cobra o mundo, seu governo autoriza estudos para a exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas e toma decisões que enfraquecem a agenda da COP30. A dicotomia entre a liderança ambiental no palco internacional e a exploração de recursos internamente reflete a dificuldade de abrir mão das receitas do petróleo.

Além da política, há o peso inegável do capital financeiro. É fundamental lembrar a dependência global do dinheiro aportado pelos fundos árabes. Majoritariamente compostos por fundos soberanos dos países do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Qatar), esses gigantes injetam bilhões em infraestrutura, tecnologia, agronegócio e setor imobiliário ao redor do mundo. Impulsionados pelas receitas do petróleo e visando a diversificação econômica, esses fundos bateram recordes globais de investimento em 2024. Quem, em sã consciência, fechará as portas para esse capital?

Por mais que o fim dos combustíveis fósseis seja uma meta civilizatória desejável, sua realização plena levará muitas décadas. A onipresença do petróleo na indústria é um fator frequentemente subestimado. Ele é essencial para a petroquímica (matéria-prima para plásticos, borrachas, nylon, poliéster); para o setor de transportes (gasolina, diesel, querosene de aviação); e para a indústria de bens de consumo, viabilizando desde cosméticos e embalagens até medicamentos. O petróleo está presente até mesmo em componentes de alta tecnologia, como telas OLED e materiais para impressão 3D, além de ser insubstituível, por ora, na produção de asfalto e lubrificantes.

A transição energética é um caminho necessário, mas precisa ser trilhada com os pés no chão. Quando potências como os EUA redobram a aposta no petróleo e a Europa recua em suas metas, fica claro que ignorar a dependência estrutural e econômica dos combustíveis fósseis não acelera o processo, apenas cria uma ilusão que se desfaz diante da realpolitik.

*Chris Santos é uma profissional com mais de 30 anos de experiência em comunicação corporativa, assessoria de imprensa e marketing digital. Com bacharelados em Relações Públicas e em Ciências Sociais, pela USP; especialização em Gestão de Processos Comunicacionais (USP); MBA em Gestão de Marcas (Branding), pela Anhembi-Morumbi; e mestre em Comunicação e Política, pela UNIP. Tem se dedicado ao estudo de tendências nas áreas de marketing digital, jornalismo, comunicação e política e tecnologias da comunicação e informação

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