Do tênis furado à liberdade: o fim da ditadura do “certo e errado” na moda

Do tênis furado à liberdade: o fim da ditadura do “certo e errado” na moda

*Por Chris Santos

Olho para baixo e vejo meu tênis preto favorito. Ele tem um buraco visível na altura do dedão. Se essa cena tivesse acontecido há alguns anos, o destino desse calçado seria certo: o fundo do armário ou o lixo. A vergonha de usar algo “imperfeito”, furado ou desgastado demais falaria mais alto. Mas, hoje, eu o calço e saio de casa sem qualquer hesitação. O motivo? Os padrões mudaram e a rigidez estética, felizmente, relaxou.

Vivemos na era em que calças jeans rasgadas não são sinal de desleixo, mas de estilo. Vemos grifes internacionais de luxo lançando tênis com a estética destroyed (propositalmente sujos e destruídos) cobrando alguns milhares de reais por isso. Se a alta costura abraça a imperfeição, por que eu deveria me preocupar com o desgaste natural do meu sapato?

Essa mudança reflete uma transformação profunda no universo da moda e na própria mídia especializada. Os conceitos se flexibilizaram drasticamente nos últimos anos. Não é à toa que formatos televisivos como o antigo “Esquadrão da Moda” ou aquelas famosas colunas de revistas que decretavam o que era “Certo e Errado”, foram deixados para trás. O julgamento deu lugar à expressão pessoal.

Um marco simbólico desse fim de era é a figura da jornalista e ícone Anna Wintour. A lendária editora-chefe da Vogue americana, que inspirou medo e admiração no livro e no filme O Diabo Veste Prada, deixou seu cargo em junho de 2025, após 37 anos. Com sua saída, encerra-se também o tempo das “ditadoras da moda”. Dificilmente veremos surgir um novo ícone com poder tão centralizado para dizer o que o mundo deve ou não vestir.

A cultura pop já vinha nos avisando. A série The Bold Type, que acompanha três amigas na redação de uma revista feminina em Nova York, ilustra bem essa transição. A trama aborda o declínio dos veículos impressos, a ascensão do digital e o poder das redes sociais, onde a voz do leitor (e do consumidor) passou a ter tanto peso quanto a do editor.

Aliás, faça um exercício de memória: quantas revistas de moda que você conhecia deixaram de circular no Brasil e no mundo nos últimos anos? A lista não é pequena e isso prova que o modelo antigo de ditar regras colapsou.

Por isso, não preciso me preocupar com o furo no meu tênis. A época de ficar refém da opinião alheia é coisa do século passado. Agora, a moeda mais valiosa é a autenticidade. É claro que ignorar os olhares exige um período de aprendizado e autoconfiança, mas o resultado compensa. Essa nova liberdade nos deixa, finalmente, mais livres para sermos quem somos – com ou sem furos no sapato.

*Chris Santos é uma profissional com mais de 30 anos de experiência em comunicação corporativa, assessoria de imprensa e marketing digital. Com bacharelados em Relações Públicas e em Ciências Sociais, pela USP; especialização em Gestão de Processos Comunicacionais (USP); MBA em Gestão de Marcas (Branding), pela Anhembi-Morumbi; e mestre em Comunicação e Política, pela UNIP. Tem se dedicado ao estudo de tendências nas áreas de marketing digital, jornalismo, comunicação e política e tecnologias da comunicação e informação

 

 

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