Como essa empreendedora decidiu enfrentar um sistema que normaliza perdas e evitou o desperdício de mais de 20 mil toneladas de alimentos
Além da Connecting Food, Alcione Pereira atua na agenda nacional com organizações como WWF, WRAP, Pacto Contra a Fome e Governo Federal

Após mais de 15 anos de carreira em multinacionais do setor alimentício, a engenheira de alimentos Alcione Pereira tomou uma decisão que mudaria completamente o rumo de sua trajetória profissional. Aos 36 anos, já consolidada no ambiente corporativo, ela optou por deixar a carreira executiva para se dedicar integralmente a um problema que, até então, era tratado como inevitável pela indústria: o desperdício de alimentos.
A inquietação que motivou essa mudança começou a ganhar forma em 2015, durante uma palestra sobre sustentabilidade. Na ocasião, Alcione teve contato com um dado que expõe um dos maiores paradoxos do sistema alimentar global, quase um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado, enquanto milhões de pessoas enfrentam a fome diariamente. “Aquilo me pareceu inconcebível. Como aceitar que tanta comida vá para o lixo enquanto tanta gente não tem o que comer? Foi ali que entendi que essa não era apenas uma questão operacional, mas uma agenda socioambiental global”, relembra Alcione.
Como transformar a indignação em soluções estruturais?
A partir dessa decisão, Alcione passou a dedicar sua trajetória à construção de soluções capazes de enfrentar o desperdício de alimentos de forma sistêmica. Para ela, o problema não está na falta de comida, mas na desconexão entre excedentes e necessidades.“Quando analisamos os dados, fica evidente que a fome não é resultado da escassez de alimentos, mas da falta de mecanismos eficientes para conectar o excesso de um lado à necessidade do outro”, explica.
Foi com essa visão que nasceu a Connecting Food, empresa especializada em inteligência de redistribuição de alimentos em perfeitas condições de consumo para organizações sociais que atendem pessoas em vulnerabilidade social. A plataforma funciona como uma infraestrutura digital que organiza todo o processo de doação, desde a identificação de alimentos disponíveis até o direcionamento para organizações aptas a recebê-los, garantindo segurança, eficiência logística e mensuração de impacto.
Hoje, a empresa atua nas 27 unidades federativas do Brasil, conectando empresas do setor alimentício a mais de 700 Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Desde sua criação, já evitou o desperdício de mais de 20 mil toneladas de alimentos, volume que contribuiu para o complemento de cerca de 37 milhões de refeições para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Como a atuação foi além da empresa?
A atuação de Alcione Pereira na agenda de segurança alimentar vai além da criação da Connecting Food. Ao longo dos últimos anos, ela se consolidou como uma das principais articuladoras da pauta de combate ao desperdício de alimentos no Brasil. A executiva é coidealizadora do Movimento Todos à Mesa, primeira coalizão de empresas do país dedicada à redução das perdas e ao aproveitamento de excedentes alimentares, e cofundadora do Pacto Contra a Fome, iniciativa que reúne setor privado, sociedade civil e poder público em torno de soluções estruturais para reduzir a fome no país. Além disso, a Connecting Food lidera a agenda técnica de implantação da metodologia de mensuração de desperdício de alimentos desenvolvida para WRAP/ UK, em parceria com a WWF Brasil. Alcione também atua como membro técnico para o desenvolvimento da Estratégia Intersetorial para a Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos, uma política do Governo Federal liderada pelo MDS.
Reconhecida por sua expertise na cadeia de redistribuição de alimentos, Alcione também atua como consultora técnica em projetos ligados à gestão de excedentes alimentares e à cadeia de suprimentos humanitária, colaborando com iniciativas da FAO. Apesar dos avanços na agenda, Alcione acredita que o maior desafio ainda está na transformação cultural em torno do desperdício de alimentos.
“Durante décadas, a lógica de produção e abastecimento foi guiada pela máxima ‘é melhor sobrar do que faltar’, prática que acabou contribuindo para naturalizar o descarte de alimentos ainda próprios para consumo. Existe uma cultura do desperdício muito enraizada e ela chega na indústria, infelizmente. Mas quando conseguimos transformar perdas em impacto social, mostramos que outro modelo é possível”, afirma a fundadora da Connecting Food.
Para ela, enfrentar esse desafio exige articulação entre empresas, organizações sociais, governos e consumidores e o uso de tecnologia para conectar, de forma mais eficiente, quem tem excedentes e quem precisa. “Nunca vou me esquecer daquela palestra que despertou essa inquietação. Mas o mais importante é ver que hoje estamos construindo caminhos concretos para mudar essa realidade”, conclui a executiva.
Sobre Alcione Pereira
Alcione Pereira é fundadora da Connecting Food, a primeira foodtech brasileira de impacto social especializada na gestão inteligente da doação de alimentos excedentes. Engenheira de Alimentos, mestre em Sustentabilidade e com MBA em Gestão Empresarial, atua no desenvolvimento de soluções para o combate ao desperdício de alimentos e à fome no Brasil.
À frente da Connecting Food, lidera uma operação que já contribuiu para complementar mais de 33 milhões de refeições, com atuação em mais de 320 cidades brasileiras. É coidealizadora da Rede Save Food Brasil, cofundadora do Pacto Contra a Fome e do Movimento Todos à Mesa. A Connecting Food também atua como parceira técnica da WWF e da WRAP na implantação da metodologia Target-Measure-Act (TMA) no Brasil, além de contribuir com projetos de redistribuição de alimentos em parceria com a FAO/ONU e com a construção da estratégia brasileira de redução de perdas e desperdício de alimentos em articulação com o Ministério do Desenvolvimento Social do Brasil.
Sobre a Connecting Food:
Fundada em 2016 pela engenheira de alimentos Alcione Pereira, a Connecting Food é uma empresa brasileira especializada em conectar alimentos que seriam descartados por empresas, mas ainda são bons para o consumo, às organizações sociais que atendem pessoas em vulnerabilidade social. Atualmente, conta com uma rede de mais de 700 OSCs presentes nas 27 unidades federativas do país. Ao lado de grandes empresas da cadeia de alimentos, como GPA, Assaí Atacadista e Proença Supermercados, a Connecting Food já auxiliou na redistribuição de 20 mil toneladas de alimentos que seriam desperdiçados, garantindo o complemento de cerca de 37 milhões de refeições. Saiba mais sobre a empresa clicando aqui.
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