Estudo inédito mapeia “caleidoscópio” de organizações que sustentam a vida nas periferias de São Paulo

Pesquisa da Fundação Tide Setubal revela como organizações de base assumiram o papel de rede de proteção social, produzem novas narrativas, fortalecem identidades e consolidam as periferias como centros de inovação cultural e política
A Fundação Tide Setubal acaba de lançar o relatório “Espaços Comunitários e de Desenvolvimento Territorial nas Periferias de São Paulo“, um mergulho na atuação de dez organizações que representam a diversidade e a resiliência dos territórios periféricos da capital paulista. A pesquisa revela que essas instituições formam um “caleidoscópio” de ações socioassistenciais, culturais e políticas, fundamentais para a garantia de direitos e a sustentação de redes de resistência. Trata-se de um campo heterogêneo, formado por entidades que atuam com recursos públicos, privados ou híbridos, desenvolvendo políticas e projetos sociais variados. Parte da população periférica acessa direitos básicos por meio dessas instituições.
O estudo, de caráter qualitativo e etnográfico, entrevistou lideranças de organizações históricas, como a Sociedade Santos Mártires e o CEDECA Sapopemba, além de novos coletivos como o Negralizando e o Preto Império, e iniciativas ligadas a igrejas evangélicas, como a Ação Retorno e a Igreja Resgatando Valores.
Um dos pontos centrais do relatório é o impacto da Covid-19. A pandemia reforçou o protagonismo das associações comunitárias no cuidado com a população periférica diante do desmonte das políticas públicas. Campanhas como “Se Tem Gente com Fome, Dá de Comer!”, articulada pela Coalizão Negra por Direitos, transformaram sedes culturais em centros de logística para distribuição de alimentos, alcançando comunidades onde o poder público não chegava.
A pesquisa também identifica o aspecto da territorialidade como fundamental. As lideranças são profundamente conectadas aos seus bairros, muitas vezes fundindo suas trajetórias profissionais e pessoais com a existência da própria organização.
O relatório ainda aponta que a sustentabilidade dessas redes corre risco, já que os grandes financiamentos filantrópicos ainda privilegiam instituições “de fora” do território, deixando para as organizações locais apenas pequenos editais que não garantem fortalecimento institucional a longo prazo.
“A publicação dá visibilidade à diversidade de ações, sentidos e trajetórias das associações comunitárias que atuam hoje nas periferias da cidade. Mais do que desempenhar um papel estritamente assistencialista ou político, o estudo revela os múltiplos papéis dessas instituições na ampliação do acesso da população aos serviços públicos, além de evidenciar sua atuação como espaços de produção de subjetividades políticas, fundamentais para o fortalecimento de uma experiência e de uma cultura democrática nesses territórios. Destaca, ainda, sua importância na elaboração de demandas locais a partir de seus próprios termos”, analisa Milena Mateuzi, uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo e Doutora em Antropologia pela USP.
Sobre a Fundação Tide Setubal: organização não governamental, de origem familiar, criada em 2006, que fomenta iniciativas promotoras da justiça social e do desenvolvimento sustentável de periferias urbanas e que contribuam para enfrentar desigualdades socioespaciais das grandes cidades, em articulação com sociedade civil, instituições de pesquisa, Estado e mercado.
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