Síndrome da face hiperpreenchida causa sofrimento psicológico e atrapalha harmonia facial, diz estudo

Síndrome da face hiperpreenchida causa sofrimento psicológico e atrapalha harmonia facial, diz estudo

Revisão ainda destaca que excessos de preenchimento com ácido hialurônico ainda perturbam o equilíbrio fisiológico da pele, com efeitos adversos como a piora da flacidez e formação de granulomas

Anos após a explosão de casos de harmonização facial que criaram resultados estéticos estigmatizados, com foco no aumento do volume através de preenchimentos com ácido hialurônico, a ciência começa a descrever uma nova condição da qual muitas pessoas foram vítimas na mão de maus profissionais: a síndrome da face hiperpreenchida.

“Essa é uma das complicações mais comuns, porém subdiagnosticadas do uso excessivo de preenchimento. Essa condição vai muito além de um simples excesso de volume localizado; em vez disso, manifesta-se a partir de uma interação complexa de disfunções anatômicas, gerando em muitos casos mais flacidez de pele e fatores psicológicos subjacentes”, explica a dermatologista Dra. Paola Pomerantzeff, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Em abril, um estudo de revisão mostrou que a síndrome é clinicamente significativa por causar distorção facial e dinâmicas anormais, além de ser frequentemente agravada por profundo sofrimento psicológico e vieses na percepção estética.

Segundo a médica, o problema vai muito além da estética e afeta a pele do ponto de vista estrutural, de forma que o FOS (Facial Overfilled Syndrome – síndrome da face hiperpreenchida) perturba o delicado equilíbrio biomecânico da arquitetura multicamadas da face. “Quando volumes de preenchimento ultrapassam a capacidade natural de acomodação dos tecidos da face, a pele, os compartimentos de gordura, os ligamentos e até a dinâmica muscular começam a trabalhar fora do equilíbrio para o qual foram biologicamente programados. Esse excesso pode distender progressivamente o ‘envelope’ cutâneo, reduzindo sua capacidade de retração ao longo do tempo e favorecendo sinais de flacidez e perda de naturalidade. Ao mesmo tempo, o produto em excesso pode limitar a movimentação fisiológica dos músculos da mímica facial, alterando a forma como a face se comporta durante o sorriso, a fala ou outras expressões, gerando projeções e volumes que parecem artificiais”, diz a médica. “Além disso, quando esse processo é repetido ao longo dos anos, com reaplicações sucessivas, parte do material pode permanecer nos tecidos por mais tempo do que o previsto, migrar para áreas vizinhas ou desencadear respostas inflamatórias crônicas, como nódulos, granulomas e mudanças na própria estrutura da gordura facial, contribuindo para o aspecto conhecido como ‘face hiperpreenchida’”, acrescenta a Dra. Paola. Em outras palavras, é como se a face fosse uma arquitetura de múltiplas camadas, em que pele, gordura, músculos e ligamentos trabalham em tensão equilibrada. “Quando volumes de preenchimento ultrapassam o limite que aquele tecido consegue acomodar, essa engenharia começa a sofrer”, acrescenta.

Excesso de preenchimento facial

A dermatologista explica que o excesso de preenchimento facial também pode fazer com que essas substâncias se acumulem em regiões específicas, podendo resultar em nódulos não inflamatórios que posteriormente podem causar fibrose. “Se os preenchimentos utilizados não forem degradáveis, os granulomas podem ser mais pronunciados e persistir a longo prazo, manifestando-se eventualmente como excesso de preenchimento facial. Tradicionalmente, acredita-se que os preenchimentos se degradam em seis meses a um ano; no entanto, estudos recentes de ressonância magnética indicam que os preenchimentos podem permanecer por até 27 meses”, comenta a médica.

A dermatologista ressalta que, para evitar a condição, é importante buscar um médico que entenda das técnicas e da anatomia da pele. “Quando se estuda a anatomia humana e o processo de envelhecimento, observamos várias mudanças em diversas estruturas da face. Ocorrem alterações nos ossos da face que ficam cada vez menos “densos”, nos músculos (que ficam cada vez mais finos e flácidos), na gordura da face (ocorre perda gradual dessa gordura) e na pele propriamente dita (diminuição de colágeno, elastina, ácido hialurônico causando flacidez, rugas, diminuição de viço). A pele vai diminuindo de espessura, ficando cada vez mais fina. Então, o resultado natural do profissional que faz um diagnóstico correto e associa as melhores técnicas e tecnologias para entregar um resultado natural para cada paciente. A falta de diagnóstico, ou um diagnóstico errado, leva a escolha de técnicas erradas ou associações erradas que levarão a um resultado ‘artificial’, ‘exagerado’, ‘detectável’ ou até mesmo a uma falta de resultado”, comenta a Dra. Paola.

O estudo defende que o plano de tratamento para a síndrome da face hiperpreenchida deva ser individualizado de acordo com a gravidade do caso e os objetivos específicos do paciente. “Em casos leves, os pacientes podem optar por não realizar novas injeções, complementando o tratamento com técnicas de firmeza da pele para prevenir a flacidez, como a radiofrequência e o ultrassom microfocado. Em casos mais graves, a remoção ativa do preenchedor é necessária, sendo o principal método a injeção de hialuronidase. Para preenchedores não biodegradáveis, técnicas de punção com agulha e compressão, ou excisão cirúrgica, podem ser necessárias, juntamente com antibióticos orais e tratamento com corticosteroides”, comenta a Dra. Paola. “Mas é muito importante que se entenda que o tratamento clínico de rejuvenescimento facial deve mudar da simples restauração de volume para o tratamento preciso e específico de cada camada, respeitando a dinâmica facial e as limitações individuais”, finaliza a Dra. Paola.

*DRA. PAOLA POMERANTZEFF: Dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), tem mais de 10 anos de atuação em Dermatologia Clínica. Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina Santo Amaro, a médica é especialista em Dermatologia pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, e participa periodicamente de Congressos, Jornadas e Simpósios nacionais e internacionais. CRM 115941 | RQE 29608. Instagram: @drapaoladermatologista

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