Transformar resíduos em soluções é um desafio que o Brasil não pode mais adiar

Transformar resíduos em soluções é um desafio que o Brasil não pode mais adiar

*Por Flávia Ferreira Cavalcante

O destino dos resíduos continua sendo um dos maiores desafios da sustentabilidade no Brasil. Em um país que gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), ainda convivemos com um cenário preocupante. Embora mais de 76 milhões de toneladas tenham sido coletadas, cerca de metade desse volume seguiu para aterros sanitários e uma parcela significativa ainda teve destinação inadequada, incluindo lixões que permanecem ativos em diversas regiões do País, em detrimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos. 

Essa realidade evidencia um paradoxo. Enquanto discutimos economia circular, descarbonização e transição para uma economia de baixo carbono, continuamos enterrando materiais que poderiam retornar à cadeia produtiva ou gerar valor por meio de tecnologias já disponíveis e amplamente utilizadas em outros países.

O Brasil possui exemplos inspiradores quando o assunto é reciclagem. Somos líderes mundiais na reciclagem de latas de alumínio e apresentamos avanços importantes em outras cadeias. Ainda assim, apenas 8,7% dos resíduos sólidos urbanos gerados em 2024 foram efetivamente reciclados, de acordo com a Abrema. A explicação passa por desafios estruturais conhecidos. Infraestrutura insuficiente, desigualdades regionais, baixa cobertura da coleta seletiva, dificuldades logísticas e a necessidade de ampliar a conscientização da população sobre a separação correta dos resíduos.

Mas é importante reconhecer que nem todo resíduo possui viabilidade técnica ou econômica para reciclagem. É justamente nesse ponto que o país precisa ampliar o debate sobre soluções complementares, capazes de reduzir a dependência dos aterros, que possuem capacidade e vida útil limitadas  e acelerar o cumprimento das metas ambientais e climáticas.

O coprocessamento é uma dessas soluções. A tecnologia permite que resíduos sem possibilidade de reciclagem sejam transformados em energia e insumos para a indústria cimenteira, substituindo combustíveis fósseis e matérias-primas virgens. Trata-se de uma rota prevista pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), alinhada às diretrizes do Plano Clima e aos compromissos brasileiros de redução das emissões de gases de efeito estufa.

Em 2024, quase 3 milhões de toneladas de resíduos foram coprocessadas no Brasil, evitando sua destinação para aterros e contribuindo para a substituição de combustíveis fósseis na produção de cimento, segundo dados do setor cimenteiro. Apesar desse avanço, o potencial ainda está longe de ser plenamente aproveitado. A taxa média de substituição térmica da indústria cimenteira brasileira gira em torno de 30%, enquanto países da União Europeia alcançam aproximadamente 55%, chegando a mais de 75% em nações como Alemanha e Áustria.

Na prática, os benefícios dessa tecnologia já podem ser observados em diferentes regiões do País. A Verdera, unidade de gestão e destinação sustentável de resíduos da Votorantim Cimentos, por exemplo, conta com mais de 6,5 milhões de toneladas de resíduos coprocessados, contribuindo para que materiais sem viabilidade de reciclagem retornem à cadeia produtiva como fonte de energia e insumo industrial.

A experiência internacional demonstra que os países mais avançados em gestão de resíduos não escolhem entre reciclagem ou recuperação energética. Eles fazem as duas coisas,  reforçando a complementariedade entre as rotas existentes.

Além de contribuir para a gestão sustentável dos resíduos, o coprocessamento também desempenha papel relevante na agenda climática. Atualmente, cerca de 40% dos resíduos sólidos urbanos brasileiros ainda recebem destinação inadequada, situação que favorece a geração de metano, gás com potencial de aquecimento global aproximadamente 28 vezes superior ao dióxido de carbono (CO₂). Ampliar as alternativas de valorização desses resíduos é uma medida importante para reduzir emissões e minimizar impactos ambientais.

A indústria do cimento tem buscado fazer sua parte. Hoje, o setor brasileiro apresenta uma das menores intensidades de carbono do mundo, com aproximadamente 580 kg de CO₂ por tonelada de cimento produzida, abaixo da média global de 610 kg, segundo a Global Cement and Concrete Association (GCCA). Esse resultado é fruto de investimentos contínuos em eficiência energética, economia circular, substituição de clínquer e uso crescente de combustíveis alternativos.

Para que o Brasil avance de forma consistente, é fundamental fortalecer a coleta seletiva, ampliar a infraestrutura de triagem, apoiar a inclusão socioeconômica dos catadores, criar mecanismos econômicos que estimulem a circularidade e promover maior integração entre as diferentes tecnologias previstas na PNRS.

O cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos depende de uma responsabilidade compartilhada entre poder público, setor produtivo e consumidores. Nenhum desses agentes conseguirá resolver o problema isoladamente. Precisamos de uma visão integrada, capaz de enxergar os resíduos não como um passivo, mas como recursos que podem gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos. O Brasil já possui tecnologia, conhecimento e capacidade industrial para avançar. O próximo passo é criar as condições para que esse potencial se transforme em realidade.

*Flávia Ferreira Cavalcante, Gerente de Gestão, Processos, Advocacy e Marketing da Verdera

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