Povo Deni direciona benefícios do manejo de pirarucu a todo o coletivo das aldeias

Povo Deni direciona benefícios do manejo de pirarucu a todo o coletivo das aldeias

Adriano Gambarini/OPAN

Em 2017, antes de sua primeira pesca comercial de pirarucu manejado, os Deni do rio Xeruã, no Amazonas, fizeram uma grande reunião na aldeia Itaúba para pensar o que fazer com os recursos oriundos da atividade. Seis anos depois, retomaram a discussão, e chegaram ao mesmo resultado: deixar o recurso do manejo para uso coletivo de todo o povo por meio da Associação do Povo Deni do Rio Xeruã (Aspodex).

A discussão sobre os benefícios do manejo sustentável de pirarucu foi realizada em março deste ano em uma oficina na aldeia Boiador, por meio do projeto Raízes do Purus, realizado pela Operação Amazônia Nativa (OPAN), com patrocínio da Petrobras e do Governo Federal. Planejando alterar a maneira de divisão dos recursos de forma que 70% fosse compartilhado entre os manejadores, repensaram e fizeram a opção de manter o modelo em que metade é destinada aos custos do manejo e metade à Aspodex, para os projetos coletivos do povo.

“Ano passado disseram que agora iriam dividir o recurso, mas na oficina decidiram mudar de ideia, porque como a Aspodex precisou gastar dinheiro para questões internas administrativas, avaliaram que seria melhor deixar o recurso na conta da associação”, explicou o coordenador do projeto Raízes do Purus, Felipe Rossoni, que orientou a oficina.

Manejo sustentável de pirarucu

Além disso, Rossoni destacou como o próprio manejo sustentável de pirarucu, por envolver processos avaliativos anuais, é importante para ajustes de percurso como o que os Deni fizeram: “Isso é um exemplo categórico das possibilidades da estrutura de governança do manejo, de oportunizar ajustes ao longo do caminho. Acredito que isso é um dos aspectos mais valiosos dessa estrutura de gestão de recursos”.

Como metodologia da oficina, os Deni retomaram os marcos importantes da vida em sua terra, desde os anos 90, quando eram submetidos a relações de exploração no período da seringa, até os dias atuais. No exercício, lembraram de quando os pirarucus – ou ve’e, em sua língua materna, – tinham quase acabado nos anos 2000, capturados no território de forma predatória por pessoas não indígenas (kariva). Relembraram também o processo de demarcação da Terra Indígena Deni,em 2004, o fortalecimento da gestão e proteção do território e a primeira pesca de pirarucu, realizada em 2016, onde pescaram apenas 10 peixes. Além disso, incorporaram outros períodos importantes em sua linha do tempo, como os projetos executados pela Aspodex e, ainda mais recente, a pandemia de Covid-19, que os levou a decidir por não realizar o manejo por segurança.

Deni, povo indígena do Amazonas

“O mais interessante dessa oficina foi a atualização da linha do tempo, porque o início era nos anos 2000 e finalizava em 2017. Agora eles colocaram desde a década de 90 e atualizaram até 2022”, observou a indigenista da OPAN, Cristabell López Palomino. Na construção da linha do tempo, os Deni avaliavam os passos dados no percurso: “Nosso direito está amushide [muito bom], nossa realidade mudou muito, o povo Deni aprendeu sobre o manejo, depois nasceu nossa associação e agora falamos mais com o pessoal de fora, temos nossas parcerias”.

Com o manejo de pirarucu, ano passado os Deni fizeram sua quinta pesca, um total de 110 peixes e 6,9 mil quilos de pescado, durante três dias de atividade. A venda do produto foi realizada a partir de um arranjo local com a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc) e faz parte de uma parceria comercial do Coletivo do Pirarucu e da marca coletiva Gosto da Amazônia. A comercialização do manejo deni rendeu um total de R$ 55.488,00, destinados, então, para os custos do manejo do próximo ano e para a associação Aspodex.

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