Instituto ACP e Iniciativa Pipa lançam o 1º fundo de desenvolvimento institucional para organizações periféricas do Brasil

Instituto ACP e Iniciativa Pipa lançam o 1º fundo de desenvolvimento institucional para organizações periféricas do Brasil

Rodrigo Pipponzi (Instituto ACP), Erica Sanchez (Instituto ACP), Gelson Henrique (Iniciativa Pipa), Marcelle Decothé (Iniciativa Pipa) e Leticya Elizabeth (Instituto ACP) | Divulgação

Na última quinta-feira (09), no CÍVI-CO, em São Paulo (SP), o Instituto ACP e a Iniciativa PIPA realizaram o pré-lançamento do Fundo POP, o primeiro Fundo de Desenvolvimento Institucional para Organizações Periféricas. O POP pretende contemplar, neste primeiro ciclo de apoio, dez instituições, sendo duas de cada região do país, e que tenham diferentes perfis e áreas de atuação, mas que enfrentam o desafio da escassez de recursos para ações de desenvolvimento institucional. Cada uma delas vai receber R$ 150 mil, distribuídos em três anos, além de fazer parte de uma comunidade de aprendizagem que terá formações com especialistas. 

A parceria entre o Instituto ACP, uma organização filantrópica e que busca fortalecer as OSCs no Brasil, e a Iniciativa Pipa, organização fundada por jovens de áreas periféricas e que tem por objetivo democratizar o acesso ao investimento social privado no Brasil, buscando ampliar o impacto das organizações de base comunitária que operam no Brasil. Na concepção do Fundo, as periferias são territórios localizados em áreas que podem ser urbanas ou rurais e possuem uma desigualdade socioeconômica aparente. Em diferentes partes do país elas podem ser conhecidas também como: favelas, bairros populares, comunidades (quilombolas, indígenas), vilas, entre outros. 

Uma pesquisa realizada pela Iniciativa Pipa, em parceria com o Instituto Nu, em 2022, e intitulada “Periferias e Filantropia – As barreiras de acesso aos recursos no Brasil”, analisou e destacou as principais dificuldades existentes para se acessar o Recurso Social Privado, ou doações institucionais – ou seja, realizadas por uma organização – no país. Os resultados vieram a partir das 607 respostas de iniciativas sociais e periféricas de todas as regiões do país. Um dos primeiros dados destacados, é que 74% das pessoas que atuam nos projetos são pessoas negras,  assim como 78% das pessoas beneficiadas. 

Periferias ficam fora das rotas de doações no Brasil

Para obter os dados da pesquisa Periferias e Filantropia – As barreiras de acesso aos recursos no Brasil, foi contratada uma coordenação de pesquisa e montada uma equipe de doze pesquisadores periféricos de todas as regiões, sendo dez estados diferentes. A coleta de dados foi realizada por meio de um formulário on-line distribuído para todas as organizações periféricas mapeadas. A partir dos dados obtidos, foi possível identificar a centralização de recursos no eixo Rio-São Paulo. 

Divulgação

Em casos de emergências e tragédias ambientais, as desigualdades se tornam ainda mais evidentes e marcantes. As enchentes no Rio Grande do Sul são um exemplo disso. A resposta mais rápida e eficiente acontece nos próprios territórios afetados e mais vulneráveis, como por exemplo a entrega de água, mantimentos ou a chegada de resgate. Em momentos como esse, a importância das organizações periféricas se torna evidente e sua atuação faz a diferença pelo seu conhecimento do território  e por fazer a ajuda chegar na população que mais precisa.

De acordo com a pesquisa, cerca de 15% dos projetos que participaram não possuem recursos, e 31% vivem com menos de R$ 5 mil por ano. Um montante baixo, comparado a quantidade de pessoas que são beneficiadas pelos projetos. A  Revolution Reggae, uma organização de Conceição do Coité (BA), que foi fundada em 2006 por um grupo de amigos que promoviam um baile para ouvir reggae e cobravam 1 kg de alimento como entrada, hoje atende mais de 300 pessoas anualmente. Na época, toda a arrecadação era doada para famílias carentes da região. 

Hoje, após mais de 15 anos de projeto, a Revolution atua com três linhas principais, sendo uma pensada na perspectiva das mulheres pretas; uma linha voltada à comunicação e a linha de perspectiva racial, com debate sobre o racismo nas periferias. “As ONGs garantem a visibilidade da luta das pessoas e garantem o mínimo de organização, identificação e autonomia para a gente pensar na luta por direito e dignidade. A partir da perspectiva do coletivo, que quer que sejamos vistos,  a gente se fortalece e reconhece as dores dos outros, sendo possível pensar em melhorias para lidarmos com essa realidade que é cada vez mais dolorosa e sofrida”, ressalta a presidente da organização, Keu Silva. 

Um dos desafios da organização destacado por Keu é a sustentabilidade financeira. Por não possuírem estrutura, as campanhas são sempre improvisadas e pensadas para ajudar na necessidade do momento. Além disso, todos seus funcionários são voluntários, ou seja, possuem trabalhos convencionais que também são prioridade. A mensalidade dos sócios não dá conta de pagar o aluguel da sede, diretoria e coordenações e manter as atividades, então a maior fonte de captação é vinda de editais.

A realidade da Revolution Reggae é a mesma de 89% das organizações entrevistadas na pesquisa Periferias e Filantropia – As barreiras de acesso aos recursos no Brasil, que afirmaram que a equipe gestora da organização também trabalha em outros lugares. Cerca de 32.9% também possuem sua maior parte da renda captada via editais. 

Olga Franco, cofundadora e presidente do Instituto Salve Quebrada, uma iniciativa que busca encurtar os caminhos que distanciam a comunidade da sociedade, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade nas periferias de São Paulo, também vive a realidade de uma organização periférica. Fundada há três anos, a Salve Quebrada já impactou positivamente mais de 14 mil pessoas nas comunidades em que possui atuação. 

Assim como Keu Silva, da Revolution Reggae, Olga destaca o papel das organizações periféricas no fortalecimento comunitário. “Enfrentamos falta de acesso a oportunidades de estudo e trabalho, enfrentamos violência urbana, discriminação racial, baixa oferta de serviços públicos de qualidade, entre outros. Esses desafios contribuem para o ciclo de desigualdade e exclusão social. As ONGs periféricas desempenham um papel fundamental no fortalecimento das comunidades em que atuam, promovendo a participação cívica, o empoderamento comunitário e a construção de redes de solidariedade, ajudando a enfrentar os desafios locais de forma mais eficaz e inclusiva”.

O Fundo POP

Lançamento do Fundo Pop | Divulgação

Cada organização terá o aporte financeiro no valor de R$ 150 mil, distribuídos em três anos. Mais que isso, o Fundo buscará trazer novas possibilidades e caminhos para cada uma das contempladas. Serão oferecidas trilhas de formação com especialistas de diversas áreas e a ampliação de rede e conexões por meio da participação na Comunidade de Aprendizagem do Instituto ACP e conexão com outros eventos do setor.

“Queremos oferecer mais do que um aporte financeiro para essas organizações, é importante disponibilizarmos formas para que as lideranças possam  qualificar a gestão dos  seus projetos. Para isso, elas terão treinamentos e mentorias técnicas e a oportunidade de conhecerem pessoas fora do universo em que estão inseridas, ampliando suas redes de relacionamentos e conexões. Se muitas dessas ONGs atendem mais de 500 pessoas com menos de 5 mil reais, imagina o que não poderão fazer com o aporte de recursos financeiros somados à formação e novas redes. Vai ser um impacto lindo e importante nas periferias. Tenho certeza que desse processo irão emergir novas lideranças dessas que todo mundo sente orgulho de apoiar”, destaca Rodrigo Pipponzi, presidente do Conselho e cofundador do Instituto ACP.

Dentre os critérios de seleção, estão organizações que sejam referência em seus territórios e que possuam trajetória comprovada; tenham lideranças, preferencialmente, de origem periférica dentro do próprio território onde atuam; tenham pessoas negras em posição de liderança; tenham CNJP ou a intenção de se formalizar e que possam ter um ponto focal com disponibilidade de tempo necessário para acompanhar o projeto ao longo dos três anos.

“Por conta deste cenário de falta de financiamento para as organizações de periferias, é urgente um fundo que doará recursos, de modo trianual, para gastos institucionais, para fortalecer a atuação dessas pessoas, para que executem seus projetos com mais fôlego. Mas chamamos a atenção de outros doadores para se engajarem na agenda de democratização de recursos paras as periferias, pois só teremos uma filantropia verdadeiramente estratégica no país, se os recursos chegarem na mão de quem faz a realidade acontecer”, Gelson Henrique, diretor-executivo da Iniciativa Pipa. 

O Fundo POP está começando com a expectativa de investir 2 milhões nas organizações selecionadas nessa primeira etapa e na estrutura do fundo, sendo que o Instituto ACP está destinando R$ 900 mil e o restante será aportado por coinvestidores. As doações de outros financiadores serão repassadas às instituições e contribuirão com o investimento nas trilhas formativas com especialistas. 

Sobre o Instituto ACP

Criado em 2019, o Instituto ACP é uma organização filantrópica de investimento social fundada pela segunda geração de uma família empreendedora. Seu objetivo é  fortalecer as organizações da sociedade civil (OSC) no Brasil para impulsionar a expansão do país. O Instituto ACP foi criado a partir do desejo de Antônio Carlos Pipponzi de organizar a sua prática filantrópica juntamente com os seus três filhos, em uma iniciativa alinhada aos seus valores e à sua vocação empreendedora. A organização acredita no potencial nacional e na força da sociedade civil organizada como vetor desse crescimento. Para mais informações, acesse https://www.institutoacp.org.br/ 

Sobre a Iniciativa PIPA

A Iniciativa PIPA, completará 2 anos de atuação no setor em 12 de maio, foi fundada por jovens periféricos que tem por objetivo democratizar o acesso ao investimento social privado no Brasil. Além de ajudar a construir um mundo em que os recursos filantrópicos e privados sejam acessíveis às organizações, aos coletivos e aos movimentos de base favelada e periférica de maneira ampla e equitativa em termos de raça, gênero e classe. “Em dois anos de atuação no campo, fizemos chegar 1M e 250 mil nas periferias”, pontua Gelson Henrique. Para mais informações, acesse www.iniciativapipa.org.

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