O labirinto dos paradoxos capitalistas na era digital

*Por Chris Santos
O capitalismo sempre foi reconhecido por sua capacidade de se reinventar através de crises, mas o cenário atual do mercado, especialmente no setor de tecnologia atingiu um nível de contradições que desafia a própria lógica produtiva. Vivemos sob o domínio de vários discursos que circulam freneticamente em fóruns corporativos, na boca dos empresários bilionários na imprensa e nas redes sociais. Ao mesmo tempo em que se contradizem, esses discursos se retroalimentam em um ciclo que parece ignorar as realidades humana, técnica e econômica.
A engrenagem das contradições
Por um lado, o mercado clama, em tom de urgência, pela necessidade de jovens talentos para o setor de tecnologia. O “discurso oficial” é de que faltam profissionais para desenvolver a Inteligência Artificial (IA) e que áreas de Exatas, como a Engenharia, sofrem com um “apagão” de mão de obra. No entanto, no minuto seguinte, as mesmas empresas promovem demissões em massa sob a justificativa de eficiência operacional e necessidade de custear os massivos investimentos em IA.
Surge aqui o primeiro grande paradoxo: se o objetivo é a soberania tecnológica, quem continuará a desenvolver a IA e a gerar o conhecimento qualificado que ela precisa “digerir” para funcionar? A IA não cria saber do nada; ela processa e mimetiza a inteligência humana pré-existente. Ao descartar os cérebros que alimentam o sistema, as corporações estão, na prática, canibalizando a própria fonte de sua inovação futura em troca de lucros imediatos no balanço trimestral que, por sinal, ainda estão longe de serem alcançados.
O diploma do ensino universitário sob ataque
Outros discursos tratam da formação educacional. Alimentados por histórias de sucesso de autodidatas, consolidou-se a ideia de que a faculdade não é mais necessária. Segundo levantamentos da plataforma Indeed, as empresas estão dando mais peso às habilidades práticas imediatas do que ao “prestígio acadêmico”. O resultado? Mais da metade da Geração Z acredita que o ensino superior é uma perda de dinheiro. Entretanto, há uma armadilha perigosa nessa visão. Fazer faculdade é muito mais do que buscar prestígio. Estamos falando de um ambiente de construção do embasamento científico, de dar impulso à criatividade e ao pensamento crítico.
Quem garantirá a segurança de uma ponte, de um sistema elétrico complexo ou de um algoritmo crítico se o conhecimento for apenas superficial? A prática ensina o “como”, mas a universidade ensina o “porquê”. Sem o “porquê”, a inovação torna-se frágil e incapaz de resolver problemas inéditos ou de dar novas respostas a problemas antigos.
O colapso do engajamento
Como esperar engajamento e lealdade quando o colaborador tem a plena convicção de que é uma peça descartável em um jogo de algoritmos? O cinismo corporativo gerou uma resposta proporcional na força de trabalho. A pesquisa Engaja S/A, realizada pela Flash em parceria com a FGV EAESP, traz dados preocupantes: o engajamento caiu para apenas 39%, o menor nível da série histórica. Esta retração não é apenas um “sentimento”, mas um rombo financeiro. A piora na saúde mental e a desmotivação das lideranças geram uma perda anual estimada em R$ 77 bilhões no mercado brasileiro. Entretanto, essa situação não ocorre apenas no Brasil.
Lançada no dia 8 de abril de 2026, a nova edição do estudo anual State of the Global Workplace 2026 traz um diagnóstico incômodo sobre o mundo do trabalho. No levantamento, a consultoria Gallup mostra que o engajamento dos colaboradores caiu pelo segundo ano seguido, atingindo o nível mais baixo desde 2020. Segundo a empresa, hoje apenas 20% dos colaboradores se dizem engajados com suas funções diárias. O Brasil tem 32% de colaboradores engajados, 12 pontos percentuais acima da média mundial, mas creio que esse não seja um resultado que deva ser comemorado.
Os paradoxos são cruéis: na tentativa de economizar demitindo para investir em IA (cujos retornos reais ainda são debatidos por especialistas), as empresas perdem bilhões em produtividade humana devido à quebra de confiança e da desmotivação gerada por ações e discursos diários que servem como verdadeiros “baldes de água fria”.
O capitalismo deste século XXI, que tem um dos seus pilares nas tecnologias de informação e comunicação, cria laços fortes com o irracional e a autodestruição. Ele exige gênios, mas oferece contratos precários; pede inovação, mas desvaloriza a formação acadêmica; busca a eficiência da IA, mas ignora que sem o humano engajado e bem formado, a própria IA não passa de um simulacro vazio. O retorno desse investimento não virá apenas de linhas de código, mas da capacidade de resolver o paradoxo fundamental: valorizar quem cria o valor. Sem isso, o sistema continuará a digerir talentos e engajamento, até que não reste mais nada para ser processado.
*Chris Santos é uma profissional com mais de 30 anos de experiência em comunicação corporativa, assessoria de imprensa e marketing digital. Com bacharelados em Relações Públicas e em Ciências Sociais, pela USP; especialização em Gestão de Processos Comunicacionais (USP); MBA em Gestão de Marcas (Branding), pela Anhembi-Morumbi; e mestre em Comunicação e Política, pela UNIP. Tem se dedicado ao estudo de tendências nas áreas de marketing digital, jornalismo, comunicação e política e tecnologias da comunicação e informação
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