Medicamentos usados no dia a dia podem causar danos à saúde bucal

Especialista explica que problemas bucais podem estar relacionados ao uso de medicamentos
Dados de uma pesquisa realizada em 2019 pelo Conselho Federal de Farmácia, em parceria com o Instituto Datafolha, apontaram que 77% dos brasileiros praticam a automedicação. Entre os entrevistados, 47% afirmaram fazer uso de medicamentos por conta própria ao menos uma vez por mês, enquanto 25% relataram se automedicar diariamente ou pelo menos uma vez por semana.
O uso de medicamentos pode trazer impactos significativos para a saúde bucal. O membro da Câmara Técnica de Estomatologia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dr. Celso Augusto Lemos, explica que a boca é a porta de entrada de tudo o que ingerimos, incluindo os medicamentos. Segundo o cirurgião-dentista, diversos remédios podem provocar efeitos colaterais na cavidade bucal, desde medicamentos de uso cotidiano, como antigripais e xaropes infantis, até antidepressivos, anti-hipertensivos e medicamentos utilizados no tratamento do câncer e de doenças ósseas.
“Infelizmente, muitos pacientes não associam os problemas que aparecem na boca aos medicamentos que estão utilizando, o que acaba atrasando o diagnóstico”, afirma o membro da Câmara Técnica de Estomatologia do CROSP.
Impactos na saúde bucal
Dr. Celso alerta que um dos principais efeitos colaterais bucais causados por medicamentos é a cárie dentária associada ao uso de remédios com açúcar na composição. Segundo ele, muitos xaropes infantis contêm sacarose e, frequentemente, são administrados à noite, antes de dormir, sem a realização da higiene bucal em seguida. “Esse açúcar serve de alimento para as bactérias responsáveis pela cárie”, explica o especialista.
“Crianças em tratamento prolongado com xaropes adoçados apresentam risco significativamente maior de desenvolver cáries precoces, inclusive nos dentes de leite, o que pode comprometer todo o desenvolvimento da dentição”, observa.
Um dos problemas recorrentes é a boca seca, também conhecida como xerostomia. O especialista explica que diversos medicamentos de uso contínuo podem reduzir a produção de saliva, entre eles ansiolíticos, anti-histamínicos utilizados em alergias, diuréticos e medicamentos para controle da bexiga. De acordo com o profissional, a diminuição da saliva pode ser ainda mais prejudicial em idosos e em pacientes que utilizam vários medicamentos simultaneamente.
Para pacientes em tratamento com bisfosfonatos, medicamentos utilizados no tratamento da osteoporose e de alguns tipos de câncer, o cirurgião-dentista esclarece que podem ocorrer alterações no metabolismo ósseo, interferindo no processo natural de renovação do osso. Por isso, a recomendação é que todo paciente que irá iniciar esse tipo de tratamento realize uma avaliação odontológica previamente, permitindo que o cirurgião-dentista execute procedimentos preventivos e acompanhe a saúde bucal durante todo o período terapêutico.
Outro impacto relevante é a mucosite oral, condição que pode surgir em pacientes submetidos à quimioterapia ou radioterapia na região de cabeça e pescoço. Segundo Dr. Celso, as feridas podem causar dores intensas, dificultando a alimentação e a fala, além de comprometer a qualidade de vida do paciente durante o tratamento oncológico.
Cuidados e tratamento multidisciplinar
O membro da Câmara Técnica de Estomatologia CROSP orienta que, ao perceber feridas ou úlceras na boca que não cicatrizam em até duas semanas, sensação persistente de boca seca, mesmo com ingestão de água, ou o surgimento de manchas brancas ou vermelhas, o paciente deve procurar um cirurgião-dentista. O especialista ressalta que o ideal é não esperar o aparecimento dos sintomas e realizar acompanhamento preventivo antes mesmo do início do uso dessas medicações.
“Esses sinais nunca devem ser ignorados. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de um tratamento eficaz e com menos sequelas”, pontua o cirurgião-dentista.
O especialista reforça ainda que a saúde bucal está diretamente ligada à saúde geral do paciente. “O cirurgião-dentista especialista em Estomatologia está preparado para identificar e manejar os efeitos colaterais dos medicamentos na cavidade bucal, mas isso exige comunicação entre os profissionais responsáveis pelo tratamento do paciente”, destaca.
No caso de pacientes oncológicos, por exemplo, a integração entre oncologistas, hematologistas, enfermeiros e dentistas é essencial para prevenir e tratar adequadamente a mucosite oral, garantindo que o paciente consiga dar continuidade ao tratamento do câncer sem interrupções.
“Sempre informe ao seu cirurgião-dentista todos os medicamentos que você utiliza. Se possível, leve uma lista com todos eles durante a consulta”, finaliza.
Sobre o CROSP
O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) é uma autarquia federal dotada de personalidade jurídica e de direito público com a finalidade de fiscalizar e supervisionar a ética profissional em todo o Estado de São Paulo, cabendo-lhe zelar pelo perfeito desempenho ético da Odontologia e pelo prestígio e bom conceito da profissão e dos que a exercem legalmente.
Hoje, o CROSP conta com mais de 175 mil profissionais inscritos. Além dos cirurgiões-dentistas, o CROSP detém competência também para fiscalizar o exercício profissional e a conduta ética dos Técnicos em Prótese Dentária, Técnicos em Saúde Bucal, Auxiliares em Saúde Bucal e Auxiliares em Prótese Dentária.
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