Além da educação tradicional: qual é a importância da formação humana
*Por Sonia de Almeida
Educar vai muito além de passar conteúdo. Aprender matemática, português, ciências ou tecnologia é fundamental para a formação de qualquer pessoa, mas existe uma questão igualmente importante nesse processo que é preparar crianças e jovens para compreenderem a si mesmos, conviverem com os outros e fazerem escolhas ao longo da vida.
Essa necessidade aparece também na percepção dos próprios estudantes. Segundo o Relatório Nacional da Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, realizado pelo Ministério da Educação (MEC) com apoio técnico do Itaú Social, para os alunos do 6º e 7º ano, 75% afirmaram ter pelo menos um adulto em quem confiam na escola e 71% disseram que os profissionais os respeitam e valorizam.
Os números mostram que a relação construída dentro da escola também faz parte da experiência de aprendizagem, quando um estudante se sente ouvido, respeitado e seguro, cria-se um ambiente mais favorável não apenas para aprender uma disciplina, mas para desenvolver confiança, autonomia e capacidade de se relacionar. A escola, nesse sentido, deixa de ser apenas o espaço onde se aprende determinado conteúdo e passa a ser também um lugar de descobertas, convivência e construção de identidade.
É nesse ponto que a formação humana ganha importância, ela não deve ser vista como algo separado da educação tradicional, mas como parte dela. Ensinar conteúdos prepara para provas, para o ensino superior e para o mercado de trabalho. Desenvolver habilidades socioemocionais, senso de responsabilidade, empatia, pensamento crítico e autonomia prepara para os desafios que não aparecem em uma avaliação. Na prática, essa formação acontece em diferentes momentos, pois, está na oportunidade de trabalhar em grupo e aprender a respeitar opiniões diferentes, em uma atividade esportiva que ensina sobre disciplina e colaboração, em um projeto que estimula a criatividade ou em uma conversa que ajuda um jovem a reconhecer suas próprias capacidades. São experiências que, embora nem sempre possam ser traduzidas em notas, contribuem para a construção de repertório e para a maneira como cada pessoa enfrenta as situações dentro e fora da escola.
A formação humana também passa pela oportunidade de experimentar, errar, tentar novamente e reconhecer as próprias capacidades. Para crianças e adolescentes que vivem em contextos de vulnerabilidade, esse processo pode ser ainda mais significativo. Ter acesso a referências, atividades culturais, esporte, tecnologia, orientação e espaços de convivência pode ampliar perspectivas e ajudar a enxergar possibilidades que antes pareciam distantes.
Isso ganha ainda mais relevância diante de um mundo em constante transformação. As profissões mudam, novas tecnologias surgem e conhecimentos específicos podem se tornar ultrapassados com rapidez. Nesse cenário, competências como capacidade de aprender continuamente, trabalhar em equipe, adaptar-se, tomar decisões e lidar com diferentes situações se tornam tão importantes quanto aquilo que foi aprendido em sala de aula. Formar para o futuro também significa ajudar crianças e jovens a desenvolverem recursos internos para lidar com aquilo que ainda não conhecemos.
Não se trata de escolher entre conhecimento acadêmico e desenvolvimento humano, precisamos dos dois, uma educação que ensina a resolver uma equação, mas não estimula o pensamento crítico; que prepara para uma profissão, mas não para lidar com frustrações; ou que transmite informação, mas não ensina a conviver, acaba deixando uma parte importante da formação de fora.
O verdadeiro desafio da educação está justamente em formar pessoas capazes de utilizar aquilo que aprenderam para transformar suas próprias trajetórias e o lugar onde vivem. Afinal, conhecimento abre portas, mas é a formação integral que ajuda cada pessoa a decidir quais caminhos deseja seguir.
*Sonia de Almeida, Diretora Executiva da Afesu.
Sobre a Afesu
Fundada em 1963, a Afesu (Associação Feminina de Estudos Sociais e Universitários) é uma organização sem fins lucrativos que promove a inclusão social de meninas e mulheres por meio da educação. Com cursos 100% gratuitos, voltados para beneficiárias de 7 a 25 anos, a instituição oferece formação integral, apoio escolar, qualificação profissional e desenvolvimento socioemocional e atua sempre sem conjunto a família da aluna. Com unidades em regiões vulneráveis nas cidades de São Paulo — Jardim Taboão, Vila Missionária e Cotia —, a instituição já atendeu mais de 15 mil beneficiárias, impactando direta e indiretamente cerca de 60 mil pessoas.
A Afesu mantém uma sólida rede de parcerias com mais de 50 empresas e instituições — como WEG, Porto, Craft, Schneider Electric, Instituto Ambikira — que colaboram para a formação humana e iniciação profissional das beneficiárias. A organização também já recebeu diversos reconhecimentos por seu impacto social e por sua contribuição à educação de qualidade e equitativa no Brasil.
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