Os resíduos invisíveis das cidades: materiais perigosos presentes em casas e estabelecimentos exigem atenção
*João Pedro Gomes dos Santos
Existe um tipo de resíduo que não aparece nas ruas, não ocupa espaço nas calçadas e, muitas vezes, sequer é lembrado como algo que precisa receber o descarte correto. Ele está dentro de casa, guardado em uma gaveta, no fundo de um armário ou naquele conhecido “quarto da bagunça”. Também pode estar no estoque de um comércio, em uma sala de escritório ou em um depósito, esperando por um destino que nunca chega. São objetos que perderam sua função, mas continuam presentes na rotina: uma lâmpada fluorescente queimada, uma pilha, um remédio vencido que por diferentes razões, permanecem guardados.
Uma pesquisa realizada em 2026 pelo Instituto QualiBest apontou que 74% dos entrevistados estavam dispostos a mudar seus hábitos de consumo para gerar menos resíduos. O mesmo levantamento revelou que 42% já haviam devolvido algum produto após o uso, dos quais 14% afirmaram realizar essa prática com frequência. Esses dados sugerem que, embora exista disposição para adotar práticas mais sustentáveis, transformar essa intenção em comportamento cotidiano ainda representa um desafio.
Parte desse desafio está justamente nos resíduos que não enxergamos. Tendemos a esperar uma oportunidade para reutilizar, consertar, doar ou encontrar o local adequado para o descarte. O problema surge quando esse “depois” se prolonga indefinidamente e esses produtos sem uso permanecem durante meses ou anos dentro de residências e estabelecimentos, seja por falta de informação, apego emocional ou simplesmente por não sabermos onde levá-los.
No caso das lâmpadas fluorescentes, essa atenção precisa ser ainda maior. Por conterem mercúrio, elas não devem ser destinadas ao lixo comum e nem reciclável. O descarte inadequado pode contribuir para a contaminação do solo, da água e dos animais, gerando riscos à saúde e ao meio ambiente. Por isso, a Reciclus opera um sistema de logística reversa para que esse resíduo seja coletado, transportado e encaminhado para tratamento adequado. Os pontos de entrega da associação estão dispostos em estabelecimentos que comercializam lâmpadas e são destinados ao descarte de lâmpadas fluorescentes de uso doméstico. Todas as localidades podem ser verificadas no site da Reciclus: www.reciclus.org.br/onde-descartar
Isso mostra que o fim da vida útil de um produto não representa o fim da responsabilidade sobre ele. Quando uma lâmpada deixa de funcionar, por exemplo, a decisão de guardá-la indefinidamente ou encaminhá-la a um ponto de recebimento faz parte do próprio ciclo daquele produto, e é uma responsabilidade também do consumidor. A logística reversa depende justamente dessa última etapa: o momento em que o consumidor reconhece que aquele objeto não deve mais permanecer em casa e decide devolvê-lo ao sistema responsável por sua destinação.
Por isso, falar sobre resíduos também é falar sobre comportamento, não basta ampliar estruturas de coleta se os materiais permanecem esquecidos dentro de gavetas, armários e depósitos. Da mesma forma, informação não produz resultado sozinha se não vier acompanhada de caminhos simples para que as pessoas possam agir.
O desafio está em transformar o “um dia eu vejo isso” em uma decisão concreta. Fazer uma revisão periódica dos objetos armazenados, identificar o que não tem mais utilidade, separar os materiais que exigem uma destinação específica e buscar os pontos de recebimento disponíveis são atitudes simples, mas que ajudam a tirar esses resíduos da invisibilidade. Afinal, o inutilizado não deixa de existir porque está escondido.
Em uma sociedade que busca reduzir a geração de resíduos e avançar em direção a modelos mais circulares de consumo, também é preciso olhar para aquilo que não está sendo descartado. Dar visibilidade a esses resíduos é também o primeiro passo para dar a eles o destino ambientalmente adequado.
*João Pedro Gomes dos Santos é Engenheiro Ambiental da Reciclus.
Sobre a Reciclus
Desde 2017, a Reciclus – Associação Brasileira para a Gestão da Logística Reversa de Produtos de Iluminação – desempenha o papel de entidade gestora da logística reversa de lâmpadas com mercúrio no Brasil. A organização operacionaliza a coleta segura, o transporte e a destinação adequada em parceria com recicladoras e transportadoras homologadas. Desde o início de suas operações, foram coletadas mais de 59 milhões de lâmpadas fluorescentes, nos mais de 4 mil pontos de entrega da Reciclus. Comprometida com a Educação Ambiental, a associação possui o Programa Reciclus Educa que tem como objetivo a produção e disseminação de conhecimento e conscientização ambiental, especialmente para crianças e jovens. O Programa oferece gratuitamente materiais de Educação Ambiental para escolas públicas e privadas, prefeituras e secretarias de educação e meio ambiente. Atualmente, a iniciativa soma mais de 185 mil materiais distribuídos por todo o Brasil, além de mais de 3 mil educadores(as) capacitados(as) por meio do curso gratuito oferecido pelo Programa.
Materiais do Programa Reciclus Educa:
A Cartilha do Bem: aprendendo a cuidar do meio ambiente
Revista em quadrinhos Turma da Mônica: Uma ideia brilhante
E-book Investigar, Sentir e Pertencer
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